Tempo e Vontade

Audio – para quem gosta de ouvir ler em voz alta

Cruzei-me pessoalmente e uma única vez com a minha companheira de conversa de hoje, num encontro literário. Foi uma troca de meia dúzia de palavras e as redes sociais permitiram que ocasionalmente falássemos. De voz doce e mente rebelde, não se coíbe ao deixar-se exprimir tal qual pensa e as suas convicções ecoam, sem filtros.

À senhora que me acompanha o verbo “comunicar” juntou-se-lhe na vida. É a sua essência, estado natural e a partir do momento em que deixou de ser criança, ganhando consciência de que o mundo lhe poderia oferecer experiências para lá da meninice, percorre um caminho onde transmite palavras, frases e muitas opiniões.

Não crê em hobbies, o vocábulo por si só carrega uma missão coerciva; prefere valer-se de encontros fortuitos com a música, dependendo da disponibilidade de ambas, numa subliminar e não assumida busca por uma reciprocidade de vontades.

Habitante do mundo, não se atreve a circular sem uma mala cheia de livros, mesmo que o peso seja excessivo e obrigue a que a mesma se acomode no porão do avião. Embora defenda um estado de «Passear onde se anda duas vezes» não repete experiências, ainda que possa repisar destinos. 

A leitura em voz alta é desinibida, intensa e com genuína projecção de voz.

Exploradora de geografias e corajosamente defensora dos seus ideais, encontra em cada estação do ano razões válidas para ler e adequar o conteúdo narrativo aos lugares que o sol, o vento, a chuva e o frio empurram.

Quando lhe pergunto o que é que para si vai bem com livros, responde-me «tempo e vontade» que adjacentes formalizam uma cerimónia onde ao fundo se ouve alguém a sussurrar “agora e para sempre” e um eco responde tímido “ámen”.

A leitura grita por intento e suplica a ocasião incontestável onde a interrupção é palavra non grata.

Vejo-a e sinto-a, à minha companheira de conversa, de forma muitíssimo delicada e forte, uma figura de contradições à primeira vista, mas que se acomodam e complementam depois de se conhecerem.

É das poucas pessoas que procura os correios e vai dando notícias sobre os locais por onde anda consagrando autêntico valor à expressão «vai enviando postais». Que livro gostaria de ver encadernado? “Os Maias”, porque a encadernação é para si uma arte que valoriza uma obra. Para que mais serve a arte se não para desconcertar os que se acham serenos e apaziguar os inconstantes e “Os Maias” respondem bem a este ímpeto.

Deixe um comentário