Uma manta e um chá, ou um copo de vinho tinto

“Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí..”

José Régio, Cântico Negro

Audio – para quem gosta de ouvir ler em voz alta

A minha companheira de conversa de hoje vai por onde a levam os próprios passos e não segue tendências nem multidões, é independente e absolutamente convicta do seu caminho.

Granjeia na leitura o fascínio das viagens, sem sair do lugar, num feitiço que não a deixa despertar até chegar ao seu destino.

Entenda-se que o não sair do lugar acomoda o movimento físico do acto, ultrapassado pelo deleite que a imaginação e antecipação dos locais que visita lhe propiciam.

Nas leituras que fez já circulou em torno do globo, utilizando incontáveis meios de transporte que irão, certamente, originar outros passeios.

Por estes itinerários as estações do ano que impõem obstáculos ou condicionam indumentárias e bagagens são inexistentes; leva-se a ela própria e consigo desbrava caminhos que escolta na memória, continuamente exibindo em papel num tom de notícia onde aos outros, que a leem, lhes permite as mesmas viagens, com pontuações adaptadas a cada um.

Estes percursos, por serem mentais e intensos, não autorizam a fisicalidade imposta ao envio de cartas, onde a nostalgia acompanha as memórias de quando tinha oportunidade de o fazer. Questiona-se se ainda existem selos ou se foram substituídos por carimbos que fazem a vez de “autorização de viagem”.

Não anda sozinha nestas expedições que faz enquanto lê, tem sempre muitas outras literaturas a seu canto para que os trajectos não cessem. Assim teletransporta-se, essa maravilhosa capacidade de super-herói, entre lugares para onde, de outra forma, seria impossível ir.

A esta senhora correm-lhe nas veias conteúdos, a velocidade maior ou menor, dependendo da intensidade da vida. Bombeia o coração com recortes de sonhos, almas, cronologias e pedaços de História, narrativas visuais, tudo o que relate e preserve momentos; que mais tarde possa reviver e aos quais acrescente recordações, ainda que imaginárias, encaixando-as com mestria na realidade plástica criada.

Sensível e reservada, ainda que audaz e consciente de si mesma, claramente segura de si, a senhora que me faz companhia nesta conversa fez a sua primeira directa na companhia das palavras de Charles Dickens, absorvida pela história de Oliver Twist, lendo de uma assentada a obra pela noite dentro, quando era ainda criança.

O sol faz parte da sua vida, não aquele sol a pique, em fogo atmosférico insuportável, mas do que aproxima um aconchego num estado inverso ao nascimento, num jeito em que sozinha a braços com a leitura, aceita somente a subtil companhia da areia, do mar e do processo que dá início ao ocultar da luz do dia.

Em casa, é o morse melódico do choro do céu (toca-lhe, o céu) que acomoda o seu bem-estar e à sumptuosidade irradiada pelo sol, pede-se absentismo.

Já disse que é reservada, num modo em que obriga a que o silencio se descubra, por vezes, como única companhia. Assim, a intimidade que tem com as leituras não pedem voz, prefere emudecer e nutrir-se com agitações internas que os caminhos das narrativas exacerbam em si.

Pergunto-lhe o que vai bem com livros e faz-me ver os elementos que acompanham as suas jornadas literárias: uma manta, um chá ou um copo de vinho. Sempre presente está o xaile que abriga o físico e o espiritual e a alternância entre as bebidas é feita de acordo com o que o itinerário lhe pede, ajustando-se aos caminhos que decide percorrer, horas fora, sem relógio a controlar e sem gentes em torno a si.

– E a encadernação? Como a vês?

– Vejo-a como sendo uma arte sem tempo. Responde.

Uma arte sem tempo, onde a companheira que se me prende nesta conversa gostaria de ver encadernados quatro livros de família, um por cada um dos seus avós e respectivos antepassados. Aqui far-se-ão valer as origens e ficarão registados a tinta os percursos que outros fizeram antes dela.

Que profundo trabalho antecipo. Escreve-os e eu estou cá para os encadernar e dar-lhes vida eterna.

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